
Entre tentativas de aproximação com Lula, impasses com Arthur Lira e articulações frustradas em Arapiraca, ex-prefeito enfrenta crescente desconfiança sobre sua capacidade de reunir e manter aliados para 2026
Por Redação
Segundo Poder
A pré-campanha de JHC ao Governo de Alagoas entra em uma fase decisiva cercada por um desafio que costuma definir o destino de candidaturas majoritárias: transformar força eleitoral em sustentação política. Embora o ex-prefeito de Maceió continue sendo apontado como um dos nomes mais competitivos para a disputa de 2026, cresce nos bastidores a percepção de que sua candidatura enfrenta dificuldades cada vez maiores para consolidar alianças, construir confiança e reunir um grupo político capaz de sustentar um projeto estadual até o fim.
Nos últimos meses, JHC buscou diferentes caminhos para fortalecer sua pré-candidatura. Tentou ampliar pontes com lideranças do interior, procurou interlocução com partidos de diferentes campos políticos, manteve conversas com setores da direita e buscou aproximação com legendas da base do governo federal. O objetivo não era construir uma aliança ideológica ampla, mas encontrar um palanque competitivo que lhe garantisse estrutura política, tempo de televisão, capilaridade eleitoral e sustentação nacional para enfrentar uma disputa que tende a ser uma das mais complexas dos últimos anos em Alagoas.
Até aqui, porém, os resultados têm sido limitados.
Uma das principais apostas era a construção de uma aliança com o grupo liderado pelo prefeito de Arapiraca, Luciano Barbosa. A possibilidade de uma composição com Lucas Barbosa ou Célia Rocha era vista como estratégica não apenas pela formação da chapa majoritária, mas pela incorporação de um dos grupos políticos mais fortes do interior alagoano. As conversas, entretanto, não avançaram.
A presença de Arthur Lira em Arapiraca ao lado de Luciano Barbosa, Lucas Barbosa e outras lideranças da região, sem a participação de JHC, foi interpretada por observadores políticos como um dos sinais mais evidentes de que o presidente da Câmara dos Deputados passou a construir seu próprio caminho para 2026 sem aguardar indefinidamente as definições do ex-prefeito.
Paralelamente, interlocutores políticos relatam que JHC também buscou aproximação com o PT em Alagoas e junto à direção nacional do partido. Nos bastidores, comenta-se que houve tentativas de diálogo em Brasília, sinalizações para uma eventual composição política e até discussões sobre espaços em uma chapa majoritária.
As conversas, contudo, não teriam produzido os resultados esperados. A avaliação predominante entre observadores políticos é que o PT optou por preservar sua aliança histórica e estratégica com o grupo liderado pelos senadores Renan Calheiros e Renan Filho, além do governador Paulo Dantas. A leitura dentro do partido seria a de que não havia razões para abandonar uma aliança consolidada no comando do Estado para aderir a um projeto ainda cercado por indefinições políticas e eleitorais.
As dificuldades também surgiram nas tentativas de reaproximação com setores do PL, partido pelo qual JHC construiu parte importante de sua trajetória política. Segundo relatos de bastidores, houve conversas, mas elas não avançaram. Entre os fatores apontados por interlocutores está a postura de neutralidade adotada pelo ex-prefeito em relação à disputa presidencial e a resistência em assumir um alinhamento mais explícito com o campo bolsonarista. Para setores da legenda, a falta de definição sobre um eventual apoio ao projeto nacional liderado por Flávio Bolsonaro dificultou qualquer avanço mais consistente.
Ao mesmo tempo, JHC enfrenta um cenário de incertezas dentro do próprio partido. Atualmente filiado ao PSDB, o ex-prefeito está em uma legenda que perdeu protagonismo nacional, possui estrutura mais limitada do que já teve no passado e ainda não definiu qual será sua posição na eleição presidencial de 2026. O partido pode lançar candidatura própria, apoiar outro projeto nacional ou até mesmo adotar um caminho diferente. Essa indefinição dificulta a construção de um palanque competitivo e amplia as dúvidas sobre a sustentação nacional de sua candidatura.
Mas talvez a principal fonte de tensão esteja justamente na composição da chapa majoritária e, especialmente, na disputa pelo Senado.
Nos bastidores da política alagoana, a avaliação é que a indefinição em torno da vaga de senador tem sido um dos principais obstáculos para a construção de alianças mais amplas. Enquanto Arthur Lira e Alfredo Gaspar avançam em seus respectivos projetos, JHC mantém todas as possibilidades abertas e evita assumir compromissos definitivos.
Até o momento, a principal pré-candidatura associada ao seu grupo é a de sua mãe para o Senado. Entretanto, interlocutores políticos afirmam que outras hipóteses continuam sendo discutidas internamente. Entre elas, a possibilidade de uma candidatura de sua esposa ou até mesmo do próprio JHC ao Senado, caso sua candidatura ao Governo não esteja plenamente consolidada até o período das convenções partidárias.
Essa indefinição gera desconforto entre aliados e potenciais aliados porque impede a construção de acordos mais sólidos. Em uma eleição marcada pela disputa de espaços políticos, poucos líderes estão dispostos a assumir compromissos sem saber exatamente qual será o desenho final da chapa.
O resultado é que importantes negociações permanecem sem conclusão. Nem Arthur Lira, nem Alfredo Gaspar, nem outros atores centrais do cenário político estadual conseguiram até agora construir um entendimento definitivo com o ex-prefeito. Nos bastidores, cresce a percepção de que a tentativa de manter todas as alternativas abertas acaba dificultando a consolidação de qualquer caminho.
Essa leitura se soma a uma crítica recorrente presente em diferentes setores da política alagoana. Adversários e antigos aliados afirmam que JHC construiu sua trajetória priorizando um projeto político fortemente centralizado em sua própria liderança. A avaliação é que o ex-prefeito frequentemente prefere preservar autonomia total em suas decisões, evitando compromissos que possam limitar sua margem de manobra no futuro.
Críticos sustentam que essa postura contribuiu para desgastes políticos ao longo dos anos e alimentou uma imagem de imprevisibilidade em momentos decisivos. A percepção existente em parte da classe política é que alianças exigem confiança, estabilidade e reciprocidade, elementos considerados fundamentais para a construção de projetos duradouros.
As críticas também alcançam o grupo político da família Caldas. Adversários costumam apontar que, ao longo da história política recente de Alagoas, diversas alianças terminaram desgastadas ou rompidas, alimentando uma percepção de dificuldade na manutenção de compromissos políticos de longo prazo. Embora essa leitura seja rejeitada por aliados do grupo, ela continua presente em parte dos bastidores e influencia a forma como muitos interlocutores enxergam as articulações para 2026.
Outro fator que preocupa aliados é a distância entre a força eleitoral de JHC na capital e sua capacidade de reproduzir esse desempenho no restante do Estado.
Embora tenha construído uma base eleitoral expressiva em Maceió e mantenha influência significativa na Região Metropolitana, interlocutores políticos avaliam que essa densidade eleitoral não se repete automaticamente no interior alagoano. Diferentemente de grupos tradicionais que possuem prefeitos, vice-prefeitos, vereadores e lideranças distribuídas em praticamente todas as regiões do Estado, JHC ainda busca transformar popularidade pessoal em uma estrutura política estadual consolidada.
Essa fragilidade ajuda a explicar a insistência na busca por alianças estratégicas. Mais do que apoio eleitoral, esses acordos poderiam suprir uma deficiência apontada até por aliados: a ausência de uma base política sólida e capilarizada em todo o território alagoano.
Nem mesmo em Maceió o cenário é considerado totalmente confortável.
Embora continue sendo uma das principais lideranças políticas da capital, JHC passou a conviver nos últimos anos com desgastes decorrentes de críticas à sua gestão, questionamentos administrativos, cobranças por transparência, denúncias amplamente debatidas no ambiente político e episódios que geraram repercussão negativa para sua administração. Mesmo que mantenha força eleitoral relevante, adversários avaliam que o ambiente político na capital já não é tão favorável quanto em outros momentos de sua trajetória.
O episódio envolvendo Ronaldo Lessa também contribuiu para ampliar as dúvidas sobre a estabilidade das alianças. O período de afastamento político seguido pelo reaparecimento conjunto reforçou especulações sobre o futuro da relação entre ambos e sobre a capacidade do grupo de manter unidade em torno de um projeto comum.
O que se observa hoje é que JHC continua sendo um nome competitivo nas pesquisas e uma liderança com forte presença eleitoral em Maceió. Porém, ao mesmo tempo, enfrenta dificuldades crescentes para ampliar sua base política, consolidar alianças estratégicas, definir sua chapa majoritária e transmitir previsibilidade aos atores que terão papel decisivo na eleição de 2026.
As conversas com o grupo de Arapiraca não avançaram. A aproximação com o PT não produziu os resultados desejados. As tratativas com setores do PL ficaram pelo caminho. O PSDB segue cercado de indefinições nacionais. A vaga ao Senado continua em aberto. E a construção de alianças mais robustas permanece sem uma definição clara.
Na política, votos são fundamentais, mas raramente suficientes. Governadores são eleitos nas urnas, porém campanhas vitoriosas normalmente são construídas sobre confiança, alianças, previsibilidade e capacidade de cumprir compromissos. Entre lideranças políticas existe uma máxima antiga que atravessa gerações: a palavra empenhada vale tanto quanto qualquer capital eleitoral.
É justamente nesse terreno que se concentra hoje o maior desafio de JHC. Mais do que provar que pode vencer uma eleição, o ex-prefeito precisará demonstrar que é capaz de reunir, manter e liderar um grupo político amplo e estável. Caso contrário, corre o risco de chegar a 2026 com força eleitoral relevante, mas enfrentando um isolamento político que pode se transformar no principal obstáculo de seu projeto para o Governo de Alagoas.