
Por Redação
Segundo Poder
O governo de Javier Milei acompanha um cenário cada vez mais delicado na Argentina, enquanto uma investigação financeira que envolve o futebol, empresas privadas e uma operação originada no Brasil começa a ganhar dimensão internacional.
O Banco Master entrou no radar do Ministério Público argentino em uma apuração que envolve a concessão do Estádio José María Minella, em Mar del Plata, e personagens relacionados à Associação de Futebol Argentino (AFA).
No centro da conexão está um empréstimo de R$ 450 milhões concedido pelo Banco Master à Revee, empresa que tinha o empresário João Carlos Mansur, fundador da Reag, entre seus principais nomes.
O crédito foi apresentado durante o processo de concessão do estádio como demonstração da capacidade financeira da empresa para executar os investimentos previstos.
Segundo informações divulgadas pelo colunista Demétrio Vecchioli, do Metrópoles, a documentação referente ao empréstimo chegou a ser traduzida para o espanhol e apresentada no processo argentino.
Agora, o Ministério Público especializado em delitos econômicos de Mar del Plata analisa a possibilidade de buscar cooperação com investigadores brasileiros, inclusive com a Polícia Federal, para cruzar documentos e informações das apurações realizadas nos dois países.
É importante ressaltar, entretanto, que essa cooperação ainda não foi formalmente anunciada.
GOVERNO MILEI ENFRENTA MAIS UM CASO DE REPERCUSSÃO INTERNACIONAL
A investigação ocorre durante um período de forte turbulência política e institucional na Argentina.
O governo de Javier Milei enfrenta uma série de desafios internos e externos, e a possibilidade de uma investigação financeira envolvendo empresas brasileiras, dirigentes esportivos e uma concessão pública adiciona mais um elemento de repercussão internacional ao cenário argentino.
Não há, até o momento, evidência de que o governo Milei tenha participado das operações financeiras investigadas ou interferido na apuração.
O ponto central é que a investigação ocorre dentro da estrutura institucional argentina durante o governo Milei, envolvendo órgãos públicos responsáveis pela fiscalização, investigação e análise dos negócios realizados no país.
R$ 450 MILHÕES DO BANCO MASTER APARECEM EM CONCESSÃO ARGENTINA
A operação financeira passou a ter importância no caso porque não ficou restrita aos registros bancários brasileiros.
A Revee apresentou documentação para demonstrar que tinha condições econômicas para assumir a concessão do complexo esportivo.
Entre os documentos estava uma declaração juramentada indicando que US$ 26 milhões — aproximadamente R$ 148 milhões na cotação da época — estavam reservados para investimentos e obras na Argentina.
Documentos oficiais da prefeitura de General Pueyrredon confirmam o processo de concessão envolvendo a Minella Stadium S.A.
A administração municipal anunciou a adjudicação do Estádio José María Minella, do Polideportivo Islas Malvinas e de áreas do Parque Municipal de los Deportes Teodoro Bronzini.
O projeto previa investimentos privados para recuperar e modernizar os equipamentos esportivos.
É nesse processo que aparece a conexão brasileira: um crédito de R$ 450 milhões concedido pelo Banco Master foi apresentado como parte da comprovação da capacidade financeira da empresa que disputava a concessão.
ESTÁDIO DA COPA DE 1978 VIROU PEÇA IMPORTANTE DO CASO
O José María Minella ocupa um lugar simbólico na história do futebol sul-americano.
Construído para a Copa do Mundo de 1978, o estádio recebeu três partidas da seleção brasileira durante a primeira fase daquele Mundial.
A proposta da concessionária previa recuperar o complexo e transformá-lo em uma arena moderna, com capacidade estimada em 35 mil pessoas.
A realidade posterior, porém, trouxe dificuldades.
Segundo a apuração do Metrópoles, aproximadamente um ano após o processo de concessão, o complexo enfrentou problemas de fornecimento de energia relacionados à inadimplência, enquanto a concessionária acumulou dívidas próximas de R$ 5 milhões com fornecedores e trabalhadores.
A Revee informou que transferiu sua participação na concessionária para outra empresa cerca de dois meses antes e afirmou ter cumprido suas obrigações durante o período em que esteve no negócio.
EDUARDO SPINOSA É UM DOS ELOS COM O CASO SUR FINANZAS
A presença de Eduardo Juan Spinosa, ex-presidente do Banfield, acrescenta outra camada à investigação.
Spinosa comandou a Minella Stadium e aparece relacionado ao chamado caso Sur Finanzas, investigação que apura suspeitas de lavagem de dinheiro, fraude bancária e movimentações financeiras envolvendo pessoas ligadas ao futebol argentino.
A investigação do Sur Finanzas alcançou a AFA e clubes argentinos e levou investigadores a buscar documentos relacionados à concessão do complexo esportivo em Mar del Plata.
A participação de Spinosa na empresa responsável pelo estádio tornou-se, portanto, um dos pontos de ligação entre as duas frentes de investigação.
De um lado, uma apuração sobre movimentações financeiras no futebol argentino. Do outro, uma empresa brasileira que apresentou um crédito de R$ 450 milhões concedido pelo Banco Master para demonstrar capacidade financeira em uma concessão pública argentina.
REAG APROFUNDA A CONEXÃO BRASILEIRA
A ligação com o Brasil também passa pela Reag.
João Carlos Mansur, fundador da Reag, presidia o conselho de administração da Revee.
O empresário também apareceu entre os alvos da Operação Carbono Oculto, deflagrada em 2025 para investigar uma estrutura financeira suspeita de movimentar recursos relacionados ao crime organizado.
A Reag passou a aparecer em diferentes frentes das investigações relacionadas ao Banco Master e aos fundos associados ao grupo.
A Comissão de Valores Mobiliários mantém processos e informações envolvendo o Grupo Master, a Reag e outras entidades relacionadas às apurações.
Em janeiro de 2026, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da Reag.
Meses antes, em novembro de 2025, o próprio Banco Central havia decretado a liquidação extrajudicial do Banco Master.
CRÉDITO DESTINADO A PROJETOS NO BRASIL FOI USADO NA DISPUTA ARGENTINA
Outro elemento que chama atenção está na finalidade original do empréstimo.
A cédula de crédito do Banco Master previa recursos para projetos da Revee em São Paulo, incluindo uma arena no Anhembi e intervenções no estádio do Canindé.
Os projetos não avançaram.
Mesmo assim, a operação financeira acabou incorporada à documentação utilizada na Argentina para demonstrar a capacidade econômica da empresa na disputa pela concessão do complexo esportivo.
É justamente essa trajetória documental e financeira que poderá ser analisada com maior profundidade caso o Ministério Público argentino formalize um pedido de cooperação às autoridades brasileiras.
MILEI E LULA: CRISE DIPLOMÁTICA AUMENTA A REPERCUSSÃO
A possível aproximação entre investigadores argentinos e brasileiros surge em um momento de forte deterioração das relações entre os governos de Javier Milei e Luiz Inácio Lula da Silva.
Brasil e Argentina atravessam uma das fases mais tensas da relação bilateral nos últimos anos, marcada por confrontos públicos entre os presidentes e redução do diálogo político.
Na semana passada, o Brasil rebaixou o nível de sua representação diplomática em Buenos Aires. O embaixador brasileiro Julio Bitelli deixou de retornar ao posto, e a relação passou a ser conduzida por um encarregado de negócios.
No domingo (9), o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, voltou a cobrar o fim dos ataques públicos contra Lula e defendeu a retomada da normalidade nas relações entre os dois países.
Até o momento, não existe indicação de que a crise diplomática tenha provocado ou influenciado a investigação financeira.
A coincidência, porém, é politicamente significativa.
Enquanto Lula e Milei enfrentam uma crise diplomática que reduziu o diálogo entre os dois governos, investigadores argentinos analisam a possibilidade de recorrer às autoridades brasileiras para esclarecer operações financeiras que atravessam a fronteira.
UMA INVESTIGAÇÃO QUE PODE GANHAR DIMENSÃO INTERNACIONAL
O caso reúne uma sequência de conexões que agora passa a ser observada com atenção: Banco Master, Revee, Reag, João Carlos Mansur, Eduardo Spinosa, AFA, Sur Finanzas e a concessão do Estádio José María Minella.
A eventual cooperação entre Argentina e Brasil poderá permitir que documentos e operações financeiras sejam analisados de maneira conjunta.
Mas é preciso separar investigação de condenação.
Não há, neste momento, conclusão definitiva de que os envolvidos tenham cometido irregularidades, e eventuais responsabilidades dependerão do avanço das apurações e das decisões das autoridades competentes.
O que já está documentado é que um crédito de R$ 450 milhões concedido pelo Banco Master foi apresentado no processo de concessão de um estádio histórico argentino, criando uma conexão financeira entre Brasil e Argentina que agora desperta a atenção do Ministério Público de Mar del Plata.
E, enquanto o governo de Javier Milei enfrenta uma conjuntura política marcada por tensões internas e pelo desgaste da relação com o governo Lula, uma investigação que nasceu no universo financeiro e esportivo argentino pode acabar exigindo respostas e documentos também do outro lado da fronteira.