
Por Redação
Agência de Notícias
Denuncia
O que deveria ser apenas mais uma noite comum no Centro de Maceió terminou em uma cena que levanta sérias dúvidas sobre abuso de autoridade, uso indevido da força e o real papel das forças de segurança pública.
Segundo relatos, duas viaturas da ROTAM teriam invadido um estabelecimento fechado na Rua Santos Pacheco, sem mandado judicial e, mais grave, sem registro formal de denúncia. Na madrugada do dia 16 de março, a ação teria sido motivada após um policial militar — fora de serviço e sem farda — acionar a guarnição, alegando perturbação por som alto. No entanto, testemunhas contestam essa versão e afirmam que o som não estava elevado e, mais do que isso, sequer tinham conhecimento da existência de qualquer equipamento de som ligado no momento. Até agora, não há qualquer prova concreta que comprove a suposta infração, o que levanta ainda mais dúvidas sobre o real fundamento da intervenção.
O episódio ganha contornos ainda mais preocupantes diante de um detalhe crucial. Antes da chegada das viaturas, esse mesmo policial, sem identificação visual oficial, teria sacado uma arma e ameaçado um dos presentes. A situação foi contornada naquele momento, e o agente retornou à sua residência. Minutos depois, porém, a ocorrência escalou: duas viaturas chegaram ao local, dando início a uma abordagem descrita por moradores como desproporcional e marcada por invasão.
Dentro do imóvel — que funciona como residência e estabelecimento comercial, pertencente a Clevisson Melo dos Santos — pessoas foram algemadas, agredidas e detidas. Clevisson e outras duas pessoas foram conduzidos e presos de forma considerada arbitrária, sem a apresentação de justificativa legal clara. Segundo os relatos, não houve desacato à autoridade, tampouco qualquer comportamento agressivo por parte do proprietário ou de seus amigos, que se encontravam reunidos no local.
Testemunhas reforçam que não havia som alto no momento da ação e reiteram que não tinham sequer conhecimento de qualquer som ligado, contrariando diretamente a motivação alegada para a intervenção policial. A ausência de registro técnico, medição sonora ou denúncia formal documentada enfraquece ainda mais a justificativa apresentada e amplia os questionamentos sobre a legalidade da operação.
Além disso, o comerciante afirma estar com medo. Segundo ele, há receio de sofrer retaliações por parte do policial envolvido — que seria seu vizinho — e também de outros agentes ligados à ROTAM. O temor, de acordo com pessoas próximas, já impacta diretamente sua rotina: o estabelecimento, especialmente no período noturno, permanece fechado com cadeados, com atendimento sendo feito apenas através de grades. Um cenário que revela não apenas insegurança, mas um sentimento de vulnerabilidade extrema — justamente em relação àqueles que deveriam garantir sua proteção.
A pergunta que ecoa é inevitável: qual foi o fundamento legal dessa ação?
A atuação da ROTAM, conhecida por intervenções em ocorrências de maior risco e enfrentamento ao crime organizado, também passa a ser questionada. Estaria uma unidade especializada sendo acionada para resolver conflitos pontuais, de natureza aparentemente simples, sem respaldo formal?
Mais do que um caso isolado, o episódio expõe uma linha tênue — e perigosa — entre o exercício legítimo da autoridade e o abuso de poder. Quando a força do Estado é mobilizada sem transparência, sem justificativa clara e sem provas concretas que sustentem a ocorrência, o que está em jogo não é apenas a legalidade de uma ação, mas a confiança da população nas instituições.
É urgente que os órgãos competentes se manifestem. A sociedade precisa de respostas objetivas:
Havia denúncia formal registrada?
Por que não houve apresentação de mandado judicial?
Qual foi o papel do policial fora de serviço na condução da ocorrência?
A abordagem seguiu os protocolos legais?
Onde estão as provas que sustentam a alegação de som alto?
Haverá apuração rigorosa e responsabilização, caso sejam confirmados excessos?
A segurança pública não pode ser instrumento de intimidação, tampouco extensão de conflitos pessoais. A farda carrega autoridade, mas, acima de tudo, exige responsabilidade.
O silêncio diante de casos como este não é apenas omissão — é conivência.
E, diante disso, permanece a inquietação que não pode ser ignorada: até onde iremos parar?